Fluir Terapias Integradas

Distúrbios de Sono em Crianças com Transtorno do Espectro Autista

Distúrbios de Sono em Crianças com Transtorno do Espectro Autista

O processo de adormecer e a manutenção do sono fazem parte do conjunto de habilidades adquiridas durante o neurodesenvolvimento de uma criança, sendo parâmetro importante no desenvolvimento infantil. A maioria das crianças entre 12 e 36 meses de idade passam pelo menos metade dos seus dias dormindo.

Distúrbios de sono ocorrem em 20% a 30% das crianças em geral, sendo a queixa relacionada a quadro respiratório a mais comum, com roncos, respiração oral, babação e sono agitado. Neste texto, abordaremos sobre queixas relacionadas ao sono em uma população específica: crianças com transtorno do espectro autista (TEA). A prevalência de TEA, segundo o último levantamento americano, é de 1 a cada 36 crianças e a ocorrência de distúrbios do sono nesta população é muito alta.

O sono é um fator regulador importante de comportamento e emoções. Problemas de sono em crianças com TEA têm sido associados a uma série de desafios comportamentais, como agressividade, irritabilidade, desatenção, hiperatividade e comportamentos disruptivos. Dessa forma, é de fundamental importância investigar distúrbios de sono na população com TEA. As queixas mais comuns relacionadas ao sono nas crianças com TEA são dificuldade de iniciar o sono, tempo total de sono reduzido e despertares durante a noite.

Antes de imaginar que a causa da insônia é decorrente ao próprio TEA, é mandatório investigar causas orgânicas que possam desestabilizar o sono, como refluxo gastroesofágico, distúrbios respiratórios do sono e distúrbios de movimento. O ronco e apneia obstrutiva do sono podem fragmentar o sono e precipitar o despertar, assim como o refluxo e movimentos repetitivos no sono. Ainda é importante ressaltar que existem medicamentos de uso crônico que podem prejudicar no “desligamento” noturno, como os psicoestimulantes. Pelos motivos acima citados, é sempre importante levar as queixas relacionadas ao sono ao pediatra ou especialista do sono para que causas orgânicas sejam investigadas e não fiquem invisíveis, impactando na qualidade do sono não só da criança, como da família. As causas comportamentais são de fundamental relevância em todos os indivíduos, com ou sem TEA. Em bebês, com ou sem TEA, as questões comportamentais são as principais causas de dificuldade em adormecer e despertares recorrentes ao longo da noite.

São fatores intrínsecos ao TEA: (1) Disfunção no centro regulatório do ritmo circadiano, com interferência no encadeamento do sono a cada 24 horas; (2) Diminuição na produção, aumento na metabolização e alteração nos receptores de melatonina; (3) Imaturidade cerebral, alteração nas ondas cerebrais durante o sono e comorbidades psiquiátricas, como ansiedade e o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade; (4) Alterações sensoriais, com incômodo com roupa de cama ou mais sensíveis aos ruídos externos ou luminosidade.

Na vasta maioria dos casos, a causa da insônia nos pacientes com TEA é multifatorial, com questões comportamentais associadas às questões intrínsecas supracitadas. Dessa forma, em muitos casos, o manejo precisa abordar tanto as questões comportamentais como as questões intrínsecas ao TEA.

Se já não é simples e rápido modificar essas questões comportamentais em crianças sem TEA, a complexidade pode ser bem maior em crianças com TEA, por desregulação emocional, fixação nos eventos diurnos, dificuldade em entender pistas sociais relacionadas com o sono ou ansiedade como comorbidade. Mas desistir, jamais.

A organização do sono começa ao amanhecer do dia, e é importantíssima inclusive para as crianças com TEA. É fundamental organizar a rotina para que ela não impacte na hora de dormir. Apoio como pistas visuais, resolução de problemas, balanceamento de atividades e demandas, diminuição da exposição de luz à noite, principalmente vinda de eletrônicos, alimentação balanceada e oferta de brincadeiras mais tranquilas após o entardecer podem ajudar muito na hora de iniciar o sono. Ao anoitecer, criar uma rotina relaxante e um ambiente seguro na hora que antecede o adormecer. O ambiente deve ser calmo, com pouca luminosidade.

Aqui na Clínica Fluir, a terapia do sono é personalizada a partir de uma anamnese detalhada que envolve não só dados do paciente, mas também a rotina da família. A terapia inclui higiene do sono, organização de tarefas e práticas MIndfulness (atenção plena), para o paciente e familiar, focadas no autocuidado, organização de tarefas, atenção e concentração.

É fundamental lembrar que o uso de medicamento fica reservado para casos em que não houve sucesso com a intervenção comportamental inicial. Nenhuma intervenção comportamental isolada tem alta eficácia, então é importante aplicar várias estratégias em um mesmo paciente, a depender do quadro clínico relatado.

Como mensagem final, deixo a minha consideração como mãe de um adolescente neuro atípico: cuidar e melhorar o sono da criança com TEA reflete nas atividades de vida diária, no humor e nas respostas às terapias diurnas. Vale a pena individualizar e encontrar a melhor combinação de tratamento para atingir o sonho de uma noite tranquila de sono da criança e de seus cuidadores. (Dra Sandra Doria Xavier)

Eveli Truksinas (CRFa 2-8110) é fonoaudióloga da Equipe Fluir Terapias Integradas, certificada em Sono pela Associação Brasileira do Sono e em Mindfulness pelo MBRP Brasil

Dra Sandra Doria Xavier (CRM-SP 102.577) é médica Otorrinolaringologista e Especialista em Medicina do Sono pela Associação Brasileira do Sono

Se você tem interesse em saber mais sobre TEA, te convidamos a ler os artigos anteriores que tratam sobre a trajetória histórica do TEA; importância de um diagnóstico criterioso e individualizado; avaliação e intervençãono TEA; e Fonoaudiologia na avaliação e intervenção de pessoas com TEA.

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